domingo, 20 de setembro de 2015

Medicina perioperatória: profilaxia de embolismo venoso em cirurgias ortopédicas - o que se tem feito atualmente ?

Uma das respostas mais procuradas pelo ortopedista que solicita uma avaliação perioperatória é a respeito dos cuidados a serem tomados em relação a profilaxia de tromboembolismo venoso em seu paciente.

As cirurgias ortopédicas, de maneira especial, apresentam um potencial trombogênico importante pois resultam, em boa parte das vezes, em grau importante de imobilidade no período pós-operatório.

Sobretudo nas cirurgias ortopédicas maiores, deve-se ter atenção especial para profilaxia dessa condição.

Utilizamos nessa revisão as recomendações baseada em publicação de 2012 da CHEST sobre profilaxia de TEV em cirurgias ortopédicas, a qual serviu de base para diretrizes americanas do NGC, vinculado ao Departamento Americano de Saúde, bem como as orientações das II Diretrizes de Avaliação perioperatórias nacionais e outros estudos relevantes publicados desde então. 

CIRURGIA ELETIVA DE PRÓTESE DE QUADRIL OU DE JOELHO

Recomenda-se o uso de profilaxia para embolia venosa por 10-14 dias com um dos seguintes agentes: Heparina de Baixo Peso Molecular ( HBPM), fondaparinux, apixabano, dabigatrana, rivaroxabana, Heparina Não-Fracionada (HNF) ou varfarina com INR. Há uma grande tendência de especialistas em se considerar a ampliação da indicação por até 35 dias nesses cenários.

Com grau menor de evidência, mas ainda sim suportado pelo painel de especialistas, estaria a indicação de meias de compressão pneumática intermitentes (MCPI)  também como opção ao uso.

Desses fármacos, a grande experiência tem sido com as HBPM, notadamente a enoxaparina e, nos últimos anos, com os novos anticoagulantes orais, os quais tem a grande facilidade pelo seu uso ORAL e com cada vez mais estudos mostrando que, no cenário eletivo, a utilização desses fármacos parecem ser seguros

Quando houver risco de sangramento elevado ou alguma contra-indicação a terapia farmacológica, como: plaquetopenia, coagulopatia com INR > 1,5, HAS descontrolada ( PAS > 180 e/ou PAD > 110), úlcera péptica ativa ou sangramento ativo, recomenda-se o uso de MCPI.

Não se recomenda o uso de AAS ou uso de meia elástica compressiva (MEC) de maneira isolada para fins de prevenção. Conduto, sobretudo a meia elástica, pode ser utilizada de maneira adjuvante a profilaxia química.

Na prática:

- Enquanto internado ( tanto em joelho quanto em quadril):
Profilaxia farmacológica com HBPM preferencialmente + MCPI (se não houver MCPI no seu serviço, faça uso MEC de média/alta compressão)
- Após a alta:
Prótese de quadril: profilaxia farmacológica por 35 dias da cirurgia + MEC de média/alta compressão pelo menos período
Prótese de joelho: profilaxia farmacológica por 14 dias da cirurgia + MEC de média/alta compressão pelo menos período. Pode-se extender por até 35 dias a depender do julgamento clínico e número dos fatores de risco adicionais
Caso seja contra-indicado a profilaxia farmacológica: MCPI por 35 dias

CIRURGIA DE FRATURA DE QUADRIL

Recomenda-se o uso de profilaxia para embolia venosa por pelo menos 10-14 dias com um dos seguintes agentes:
Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM) - p.e. a enoxaparina, Heparina Não-Fracionada (HNF) ou varfarina com INR.  Há uma grande tendência de especialistas em se considerar a ampliação da indicação por até 35 dias nesses cenários.

Com grau menor de evidência, mas ainda sim suportado pelo painel de especialistas, estaria a indicação de MCPI também como opção ao uso. 

A grande diferença é que, em um cenário não eletivo, ainda não se recomenda o uso dos novos anticoagulantes orais e que a HBPM assumiria um papel mais vantajoso em relação aos outros fármacos subcutâneos.

Não se recomenda o uso de AAS ou uso de meia elástica compressiva (MEC) de maneira isolada para fins de prevenção. Conduto, sobretudo a meia elástica, pode ser utilizada de maneira adjuvante a profilaxia química.

Na prática:

- Enquanto internado: HBPM + MCPI (se não houver MCPI no seu serviço, faça uso MEC de média/alta compressão)

- Após a alta: HBPM até 35 dias da cirurgia + MEC de média/alta compressão pelo menos período
- Caso seja contra-indicado a profilaxia farmacológica: MCPI por 35 dias

PROCEDIMENTOS POR ARTROSCOPIA DE JOELHO

A artroscopia do joelha é feita na maioria das vezes em esquema ambulatorial e grande parte da sua população é de jovens. Correspondem a uma boa parte dos procedimentos cirúrgicos no mundo. Nos EUA, é a terceira cirurgia ortopédica mais comum. Uma coorte japonese de 2006-2013, englobando 2623 pacientes com média de idade de 33 anos avaliou complicações relacionadas ao procedimento nessa população. Quando a embolia venosa, nenhum paciente fez uso de profilaxia farmacológica e não foi detectado NENHUM caso de trombose venosa profunda ou tromboembolismo pulmonar. Em outra coorte americana utilizando 4833 pacientes, apenas 18 (0,4%) doentes desenvolveram embolia venosa e sobretudo em idosos, em pacientes internados previamente e com outros fatores de risco ( 1 tinha neoplasia, 1 estava gestante, 2 infecções ativas e 3 com trauma recente )

Em pacientes que não tenham nenhum outro fator de risco para embolismo venoso, recomenda-se apenas a indicação de deambulação o mais precocemente possível.

Caso o doente tenha algum outro fator de risco adicional - ganhando peso a história de embolia venosa prévia - ou que seu procedimento evolua com tempo maior que o esperado pondera-se o uso de profilaxia farmacológica, apesar da baixa evidência de literatura para isso. O tempo não está bem definido nas diretrizes. Acreditamos que manter de 7 dias seria uma opção razoável.

Nesse cenário, prefere-se as HBPM ou os NOACs - rivaroxabana, dabigatrana ou apixabano.

Na prática:

-  Se não há fator de risco a adicional para embolia: deambulação precoce
- Se há fator associado, sobretudo história de TVP/TEP prévio: discutimos junto ao paciente e indicamos profilaxia farmacológica por 7 dias.
- Caso seja contra-indicado a profilaxia farmacológica: MCPI por 7 dias

Figura 1 - Retirado do texto do Projeto Diretrizes sobre profilaxia de embolismo venoso. Disponível aqui

CIRURGIAS ISOLADAS POR PATOLOGIAS DISTAIS AO JOELHO:

Para pacientes que serão submetidos a procedimentos abaixo do joelho ( fraturas, ruptura de ligamento, dano a cartilagem,..)requerendo algum período de imobilização, recomenda-se apenas a indicação de deambulação o mais precocemente possível.

Outras situações devem ser individualizadas entre equipe médica e paciente.

CIRURGIAS DE COLUNA

Há pouca literatura a respeito de cirurgias da coluna e risco de TEV. A publicação mais importante nesse caso é a da North America Spinal Sugery, de 2009, que pode ser vista aqui

Um dos medos em relação a uso de anticoagulação seria a possibilidade de se desenvolver um hematoma epidural.

As abordagens posteriores para procedimentos menores não parecem ser de baixo risco para TEV  e, habitualmente, não requerem profilaxia farmacológica. Em cirurgias maiores, com abordagens combinadas antero-posterior(circunferenciais) ou em pacientes de alto risco - politrauma, neoplasias ou múltiplos fatores de risco para TEV, a profilaxia com medicamentos seria recomendável.

Contudo, não há definição clara e cada caso tem de ser individualizado. Cabe a equipe médica do perioperatório, juntamente ao cirurgião de coluna, pesarem os riscos x benefícios da abordagem.

Na prática:

Em indivíduos saudáveis, sem outras fatores para tromboembolismo venoso ( TEV ) e com cirurgias não-prolongadas e com abordagem posterior: recomenda-se a deambulação precoce, podendo-se associar profilaxia mecânica.

Para indivíduos com fatores de risco adicionais para TEV (vistos na figura 1): considera-se o uso de profilaxia química com HBPM ou HNF podendo ser associados a método mecânico (MCPI ou MEC)

Para indivíduos com fatores de risco adicionais para TEV e que, por peculiaridade cirúrgica, sejam considerados de risco para sangramento, sobretudo hematoma epidural, recomenda-se o uso de método mecânico: MCPI (preferencialmente) ou MEC.

Em todas a situações, quando indicada, a profilaxia mecânica deve ser instituida já no pré-operatório.

A profilaxia farmacológica, quando indicada, deve ser iniciada no pós-operatório, idealmente no primeiro P.O. e, nesse caso, deve-se ter bastante vigilância em relação ao exame neurológico do paciente para rastreio de possíveis alterações secundárias a compressão neural de medula espinhal.

O tempo de profilaxia também não está claro na literatura. Acaba-se fazendo até a alta hospitalar ou prolongando-se a critério da equipe por período a ser determinado caso-a-caso.

CIRURGIAS DE RESSECÇÃO DE TUMOR ÓSSEO

O mix de 'cirurgia ortopédica associado a cirurgia oncológica' gera um alerta vermelho em relação ao risco de embolia venosa. Qual conduta então em relação as cirurgias para ressecção de tumores ósseos? Por incrível que pareça, essa é uma pergunta difícil de ser respondida atualmente pelo pouco número de estudos e pacientes envolvidos em pesquisas clínicas, haja vista que os tumores do sistema ósteo-musculares não são tão comuns. A própria epidemiologia da embolia venosa nesse cenário ainda está 'engatinhando'.

Não há nenhuma recomendação clara envolvendo especificamente esse tipo de paciente em nenhuma diretriz nacional ou internacional vigente. Muito do que se tem feito acaba vindo extrapolado do contexto de pacientes oncológicos, sobretudo os guidelines da ASCO - American Society of Clinical Oncology.

Nesse cenário, não estão aprovados nenhum novo anticoagulante oral. As opções recaem sobre as heparinas:  HBPM (preferencialmente) ou Heparina Não-Fracionada.

O uso concomitante de métodos mecânicos de profilaxia é recomendado, sobretudo quando risco cirúrgico for aumentado.

Na prática:

- Enquanto internado: HBPM + MCPI (se não houver MCPI no seu serviço, faça uso MEC de média/alta compressão)

- Após a alta: HBPM até se completar 14 dias da cirurgia  + MEC de média/alta compressão por igual período. Em pacientes com múltiplos fatores de risco para embolismo venoso, submetidos a cirurgias de ressecção de tumor em quadril ou procedimentos de longa duração, deve-se individualizar caso-a-caso e considerar extensão da profilaxia por 4 semanas.
- Caso seja contra-indicado a profilaxia farmacológica: MCPI ( se não houver MCPI no seu serviço, faça uso MEC de média/alta compressão ) pelo mesmo período acima recomendado.

MEIA DE COMPRESSÃO PNEUMÁTICA INTERMITENTE (MCPI) É A MESMA COISA DE MEIA ELÁSTICA COMPRESSIVA (MEC)?

Não! Quando nos referimos as MCPI durante esse texto estamos abordando é um dispositivo que gera pulsos intermitentes de ar comprimido para insuflar seqüencialmente  múltiplas câmaras em perneiras acopladas ao doente, iniciando-se no tornozelo e movendo-se através das pernas em direção à coxa. O sistema promove compressões a intervalos pré-estabelecidos de maneira a adequar o tempo para reabastecimento do retorno venoso conforme a necessidade do paciente, através de um sensor presente na perneira. Eles existem em forma portátil e, para serem considerados efetivos, devem ter sensor de uso adequado - indicando o correto posicionamento do aparelho junto ao corpo do doente - e devem ser utilizados pelo menos 18h durante o dia. O aparelho é colocado, quando possível, horas antes do início da cirurgia e são utilizado continuamente até quando cesse o período indicado de profilaxia. Naturalmente, para procedimentos ortopédicos de membros inferiores, a compressão inicia-se no pós-operatório. Devem ficar juntos ao paciente sempre que estiver em repouso, devendo ser retirados sempre que doente estiver deambulando.

Custo: em uma faixa de 300-500 reais

As meias elásticas de compressão tem muito menos evidência de literatura em relação as MCPI. Contudo, parecem ter efeito na redução de eventos de embolia venosa, mas em menor grau que as MCPI. Sendo assim, só seriam indicadas quando não houvesse nenhuma possibilidade do uso de MCPI . Nesse cenário, indicamos meias de média (18-21 mmHg) ou alta (20-30 mmHg) compressão.


Ilustração de um modelos de MPCI.

Ilustração de um modelo de meia elástica compressiva. Fonte: imagem da internet  aqui



QUANDO DEVE-SE INICIAR A PROFILAXIA ?

HBPM - Enoxaparina:
Pode-se iniciar 12h antes ou 12h após o procedimento na dose de 40 mg 1xd. Em pacientes com outros fatores predisponentes a embolia venosa: portadores de neoplasia, obesos, com varizes optamos por realizar o início da profilaxia antes mesmo do procedimento, desde que se respeite a distância de pelo menos 12 horas.

HBPM - Dalteparina:
5000 Unidades 12 h antes da cirurgia e depois 5000 Unidades 1x ao dia

Heparina Não-Fracionada:
5000 Unidades 12 h antes da cirurgia e depois 5000 Unidades 3x ao dia

Fondaparinux:
Inicia-se na dose de 2,5 mg cerca de 6-8 horas após o procedimento.

Dabigatrana:
Inicia-se de 1 a 4 horas após a cirurgia na metade da dose, com 110 mg. No dia seguinte. deixa-se a dose de 220 mg 1xd. Em pacientes com disfunção renal moderada, pacientes acima de 75 anos e naqueles recebendo amiodarona, preconiza-se reduzir a dose padrão para 150 mg/dia (dose inicial de 75 mg, seguida da dose padrão de 150 mg, uma vez ao dia).

Rivaroxabana:
Inicia-se após uma adequada hemostasia. Habitualmente a o medicamento é feito de 6-10h após o procedimento.

Apixabano:
Fazer 2,5 mg iniciando-se de 12-24h após terminada a cirurgia.

Em todos os pacientes deve-se enfatizar a importância da deambulação precoce como medida adjunta.

Para mais detalhes dos novos anticoagulantes veja aqui

BUSCA DE TROMBOSE VENOSA PROFUNDA (TVP) EM PACIENTES ASSINTOMÁTICOS

Não se recomenda o rastreio de embolismo venoso com ultrassonografia em pacientes que não tem sintomas ou sinais de embolismo venoso no perioperatório. Estudos de moderada qualidade não mostraram benefícios em se tratar possível TVP em pacientes sem clínica, mas, de maneira contrária, evidenciaram aumento de risco de sangramento importante associada a essa prática.

EXPECTATIVAS

Nos próximos anos, os anticoagulantes orais devem ganhar cada vez mais espaço nesse cenário a medida que o uso mais abrangente e novos estudos avaliando sua segurança e eficácia, incluindo número maior de doentes, sejam realizados. As novas diretrizes a serem lançadas devem aumentar o elenco de procedimentos em que esses fármacos serem recomendados.

Leitura sugerida:

Prevention of VTE in Orthopedic Surgery Patients. Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines - 2012. Disponível aqui

Recomendações do National Guideline Clearinghouse sobre embolia venosa em cirurgias ortopédicas. Disponível aqui

II Diretrizes de Avaliação Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia - 2011. Disponível aqui

Venous Thromboembolism Prophylaxis and Treatment in Patients With Cancer: American Society of Clinical Oncology Clinical Practice Guideline Update 2014 Disponível aqui e também aqui

Prevention of venous thromboembolic disease in surgical patients em uptodate.com/online acessado em set/2015. Disponível aqui

Risk and prevention of venous thromboembolism in adults with cancer em uptodate.com/online acessado em set/2015. Disponível aqui

Incidence of Venous Thromboembolism after Elective Knee Arthroscopic Surgery: A Historical Cohort Study J Thromb Haemost. 2013 July ; 11(7): . doi:10.1111/jth.12283. Disponível aqui

Real-world data confirm clinical trial outcomes for rivaroxaban iorthopaedic patientsReal world data confirm clinical trial outcomes for rivaroxaban in orthopaedic patients. Curr Orthop Pract.  2015. May; 26(3): 299-305. Disponível aqui

Hagino T e cols. Complications after arthroscopic knee surgery. Arch Orthop Trauma Surg (2014) 134:1561–1564. Disponível aqui

Biermann JS. Incidence and Risk Factors for Pulmonary Embolism After Primary Musculoskeletal Tumor Surgery.Clin Orthop Relat Res (2013) 471:3317–3318. Disponível aqui

Oliveira L e cols. Atualização em tromboprofilaxia em cirurgias eletivas da coluna vertebral. Revisão sistemática.Coluna/Columna. 2014; 13(2):143-6 Disponível aqui

North America Spine Surgery Clinical Guidelines – Antithrombotic Therapies in Spine Surgery. 2009. Disponível  aqui

Figueredo M. A terapia de compressão e sua evidência. J Vasc Bras. 2009;8(2):100-102. Editorial Disponível aqui

sábado, 19 de setembro de 2015

Desafio de ECG - Caso 3


Paciente com 62 anos e hipertenso, com história de síncope, inclusive presenciada no momento do atendimento. O que vemos no ECG de base e no momento da síncope ?
* As respostas dos ECG sempre virão na semana seguinte acompanhadas do novo desafio.


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Desafio de ECG - Caso 2 - Comentário  - Veja o ECG clicando aqui

R-  Flutter atrial + bloqueio átrio-ventricular total ( BAVT )
Flutter atrial é uma das arritmias cardíacas mais frequentes na pratica clínica. Geralmente está associado a doença cardíaca estrutural e muito comumente associado a fibrilação atrial em até 75% das vezes. O que caracteriza essa arritmia é a macro reentrada, usualmente no átrio direito com a parte lenta do circuito sendo o istmo cavo tricúspide (alvo de terapêutica na ablação por radiofrequência) 
O Flutter atrial pode ser dividido em 2 tipos:

Flutter dependente do Istmo cavo-tricúspide:

Anti-horário ou simplesmente 'típico': O circuito de Macro-reentrada se propaga ao redor da área do ânulo tricúspide, inferiormente ao longo da parede atrial, ascendendo pelo septo inter-atrial e descendo pelo ICT entre o ânulo da valva tricúspide e a válvula de Eustáquio. 
Horário ou típico-reverso: Nesses casos, o circuito se propaga no sentido inverso do relatado no 'típico'.

A distinção entre o Flutter típico horário e o anti-horário pode ser feita, na maioria das vezes, pelo ECG, onde:

- Horário: ondas F em DII, DIII e aVF: positivas e  V1: negativas
- Anti-horários: ondas F em DII, DIII e aVF: negativas e V: positivas

Flutter não dependente do ICT ou Flutter atípico:

Reserva-se o termo atípico para aqueles flutter que não envolvem o ICT em seu circuito de macro-reentrada, mas sim outras vias atriais. Geralmente, ocorrem após cirurgias para correção de cardiopatias congênitas, outras cicatrizes cirúrgicas, fios de sutura, após ablação, etc. Não há um padrão eletrocardiográfico característico desse divisão.
Quais as características no ECG ?
O padrão: Serrilhado (dentes de serra) é clássico do Flutter.
Ritmo: Em geral é regular (pode ser irregular, não exclua o diagnóstico por esse dado).
Frequência: 250-350 (arritmia matemática no padrão clássico.)
Configuração do flutter: No típico, ou anti-horário, (do caso em questão) vamos ter ondas F negativas em derivações inferiores DII, DIII e AVF e positiva em V1.
O ritmo ventricular vai depender da condução dos estímulos pelo AV. É comum que exista algum grau de bloqueio do nó AV em relação aos estimulos supraventriculares - em geral 2:1. Isso é até um mecanismo de defesa. Imagine a situação catastrófica se o nó AV permitisse a condução 1;1 entre estimulos atriais e ventriculares. Teríamos um ventrículo batendo a uma frequência altíssima (250-350 ), que poderia resultar em uma taquicardia ventricular sem pulso. 

No caso apresentado, baixa frequência ventricular, apesar do QRS estreito, regularidade do RR e pela ausência de relação entre o estímulo atrial e o QRS,  podemos presumir que o no AV está bloqueado e a despolarização do QRS não depende do estimulo supraventricular. Portanto, temos um BAVT.

Leitura sugerida:

2015 ACC/AHA/HRS Guideline for the Management of Adult Patients With Supraventricular Tachycardia: Executive Summary. Disponível aqui

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Novos diretrizes para tratamento do IAM com supradesnivelamento do segmento ST


Foram atualizadas as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC - para o manejo dos pacientes com Infarto Agudo do Miocárdio com supradesnivalemento do segmento ST. 

As novas recomendações foram publicadas em agosto/2015 no Arquivos de Cardiologia e podem ser acessadas aqui.

Boa leitura!

Imagens em Cardiologia - infecção de esternotomia

 F.O. do paciente. O lado cranial é o lado esquerdo e a direita encontra-se a região mais caudal. Foto: arquivo pessoal do autor

A foto acima ilustra uma intercorrência infecciosa após uma esternotomia utilizada para uma cirurgia da revascularização miocárdica (RVM). Infecções de esternotomia, apesar da baixa frequência, são complicações que podem ser de difícil manejo e causam certa frustração na equipe médico e, sobretudo, no paciente.

Este paciente de 46 anos havia submetido há RVM há 12 dias. Retornou ao Pronto-Socorro do hospital onde havia sido operado por quadro de 'vazamento' de pus + vermelhidão na topografia da ferida operatória.

Deu entrada com uma toalha envolvendo a ferida, que estava suja de líquido de aspecto purulento e apresentando febre de 38,1ºC, com relato de dor no local da cirurgia e 2 episódios referidos de calafrio. Apesar dos sinais sistêmicos, não apresentava acometimento hemodinâmico.

Na exposição da F.O. observava-se área de hiperemia nos bordos da ferida e deiscência da sutura em sua região mais cranial com saída de discreta quantidade de líquido purulento. Observe, na região mais profunda, o fio metálico da rafia do esterno. A palpação, havia amolecimento de osso em esterno, mas sem 'clique' esternal.

Ao nos depararmos com uma situação com essa temos de colher do paciente algumas informações:

1) Quanto tempo da cirurgia ?
2) Quanto tempo da alta hospitalar ?
3) Houve algum complicação infecciosa durante sua internação ?
4) Quais os antibióticos que fez uso e qual último dia de aplicação ?
5) Quais co-morbidades do doente ?
6) A palpação: há amolecimento e/ou instabilidade do esterno?
7) Há sinais de acometimento sistêmico e alterações na hemodinâmica do doente ?

Usando essas informações podemos definir 3 cenários clínicos:

1) Infecção apenas limitada a ferida operatória
2) Sinais sistêmicos, mas sem sepse
3) Sepse grave ou presença de choque séptico

Em relação aos tipos possíveis de infecção temos:

1) Limitada a tecido superficial - pele, subcutâneo e músculo: o esterno é estável a palpação. Contudo, na presença de sinais sistêmicos, como febre e calafrios, associados a drenagem importante de secreção, mesmo com esterno estável, deve-se suspeita de infecção profunda.

2) Infecção profunda ou Mediastinite: essa situação pode partir de uma infecção de tecido superficial penetrando área mediastinal ou resquício de contaminação intraoperatória. Paciente apresenta-se com sinais sistêmicos infecciosos, podendo, ou não, ter infecção superficial adjacente. É um quadro grave, com mortalidade alta que requer pronta intervenção.

3) Deiscência de esterno: trata-se da separação das bordas do esterno, podendo ocorrer independente de infecção superficial. Paciente queixa-se dor esternal e pode ter a sensação de 'clique'. No exame físico, coloca-se a mão, exercendo leve pressão, em cada hemitórax e pede-se para o paciente tossir, isso irá causar um barulho característico da movimentação de uma aresta esternal em contato com a outra, chamada de 'clique'. Essa situação é uma emergência cirúrgica, pois há risco iminente de perfuração ventricular por algum fio de aço ou mesmo por resquícios ósseos esternais.

Alguns autores preferem abordar as infecções de esternotomia usando a classificação de Pairolero, que divide a infecção baseada no tempo de surgimento e seus aspectos clínicos, apresentada abaixo:

Tipo 1:surge geralmente na primeira semana após o procedimento formando secreção sero-sanguinolenta, mas sem celulite ou outros sinais de complicação associadas. Geralmente manejadas com antibióticos via oral e, eventualmente, alguma abordagem cirurgia.

Tipo 2: tipo mais prevalente, ocorrendo na 2-4 semana de P.O. podendo ter a presença de secreção purulenta, celulite, mediastinite, quadro de osteomielite e, mais raramento, costocondrite. Tratamento, além de antibioticoterapia, envolve debridamento de todo tecido necrótico e cartilagem envolvida. Drenos de sucção e uso de musculatura para peitoral também são opções.

Tipo 3: ocorre tardiamente, meses a anos, após o procedimento. Raramente com mediastinite presente, mas áreas de celulite localizada, osteomielite, costocondrite e presença de corpo estranho são frequentes. Necessitam de debridamento ativo e repetido. Após esterelização do tecido, técnicas de sucção e enxerto musculares são opções.

Classificação de Pairolero - Disponível para acesso aqui


De rotina deve-se coletar material da ferida operatória para cultura, coleta de 2 pares de hemocultura, exames gerais de bioquímica, PCR e hemograma e realizamos TC de Tórax com contraste.

A TC Tórax tem por objetivo detectar alterações em tecido operatório mais profundo. A presença de separação esternal, má fixação, erosão óssea,  pseudo-artrose que podem sugerir deiscência. A simples presença de coleção retroesternal, principalmente quando em pós-operatório recente é inespecífica e na maioria das vezes não tem significado patológico.

Em nosso serviço, após avaliação inicial do cardiologia clíncia, tanto a cirurgia cardíaca quando o serviço de cirurgia plástica são convocados para definir sobre a necessidade de procedimentos cirúrgico associado.

De maneira geral as feridas superficiais são manejadas com antimicrobianos associado a cuidados de locais da F.O e evoluem bem em longo prazo, a mediastinite requer antimicrobiano endovenoso associado a debridamento cirúrgico agressivo e a deiscência de esterno é de tratamento cirúrgico

Leitura sugerida:

Overview and Management of Sternal Wound Infection. SEMINARS IN PLASTIC SURGERY/VOLUME 25, NUMBER 1 2011. Disponível aqui

Surgical management of sternal wound complications. Acessado em Set/2015 em uptodate/online Disponível aqui

Treatment of sternal wound infections after open-heart surgery. Asian Journal of Surgery (2014) 37, 24e29. Disponível aqui

Pailorelo e cols. Long-term results os pectoralis major muscle transposition for infected sternotomy wounds Disponível aqui

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Calendário vacinal do paciente cardiopata - alguma peculiaridade ?

Sim. Colocamos abaixo a calendário vacinal do paciente cardiopata recomendado pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM) para 2013-2014.

Devemos chamar a atenção para o fato de que os cardiopatas adultos devem ser vacinados para Influenza e Pneumonia conforme mostra tabela abaixo.

Para obter as vacinas disponibilizadas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, basta que seja enviada uma carta para esse centro constando o CID da cardiopatia, nome completo e data da solicitação. Os CRIEs existem em todas as unidades da federação, a maioria localizado nas capitais. Uma lista de endereços pode ser vista clicando aqui.

Caso a intenção seja a utilização dos serviços de clínicas da vacinação, basta encaminhar o paciente a um dos estabelecimentos credenciados pela SBIM. A lista, com os endereços, pode ser acessado, por estado clicando aqui.


Fonte: Manual da SBIM 2013-2014 


Leitura sugerida:

Manual do CRIE - 2006. Disponível aqui

Guia de vacinação da SBIM 2013-2014 para situações especiais. Disponível  aqui

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Medicina perioperatória: avaliação para procedimentos odontológicos - quais as situações que mais geram mais dúvidas no cirurgião-dentista e como respondê-las ?

Os procedimentos odontológicos, via de regra, são considerados de baixo risco cardíaco intrínseco e, salvo algumas situações específicas, não haverá maior dificuldade na realização dos mesmos.

Ainda assim, alguns pacientes podem gerar uma verdadeira dor de cabeça em nossos colegas cirurgiões-dentistas quando em programação para intervenção cirúrgica.

Por isso, é comum sermos solicitados a avaliar doentes antes da realizações de determinados intervenções e ,logo abaixo, apresentamos as principais razões desses pedidos seguido das orientações para adequado manejo.

1) Em quais pacientes preciso administrar antibioticoprofilaxia ?

Há certa discordância entre o posicionamento nacional, representado pelas II Diretrizes de Avaliação Perioperatória da SBC e outras diretrizes internacionais, estás mais restritas e aquela mais 'liberal' na indicação de profilaxia. Por entender que nossa população, com sua pior higiene bucal e menor acesso ao sistema de saúde quando comparado a de outros países, necessita de recomendações um pouco mais abrangentes em relação a indicação de profilaxia, optamos por seguir as II Diretrizes.

Para se tomar a decisão correta determine a co-morbidade do doente e qual procedimento dentário será realizado e veja se eles são considerados de alto risco para endocardite, conforme descrito abaixo:

CONDIÇÕES CARDÍACAS DE ALTO RISCO

- História prévia de Endocardite Infecciosa
- Portador de prótese cardíaca valvar
- Valvopatia corrigida com algum material prostético
- Valvopatia adquirida em paciente transplantado cardíaco
- Cardiopatia congênita cianótica não corrigida
- Cardiopatia congênita cianótica corrigida, mas com material prostética.
- Cardiopatia congênita cianótica corrigida, mas que evolui com lesão residual

* pondere a inclusão de outras cardiopatias não citadas aqui que ocorram em pacientes de baixa renda e com acesso precário ao sistema de saúde.

PROCEDIMENTOS ODONTOLÓGICOS DE ALTO RISCO

- Colocação subgengival de fibras ou fitas com antibióticos
- Exodontias
- Implantes ou reimplantes
- Procedimentos endodônticos e periodônticos
- Colocação de bandas ortodônticas
- Procedimentos que julgue-se causarem sangramento significativo
- Drenagem de abscesso
- Outros procedimentos não mencionados acima e que envolvem a manipulação de tecido gengival, região periodontal ou perfuração da mucosa oral.

Recomendação:

Grau I - Fazer profilaxia em indivíduos com cardiopatia de alto risco associados a procedimentos de alto risco

Grau IIa - Fazer profilaxia em indivíduos com cardiopatia que não se enquadra no alto risco associados a procedimentos de alto risco

Grau IIb - Fazer profilaxia em indivíduos com cardiopatia que não se enquadra no alto risco em procedimentos que também não se enquadram no alto risco.

Grau III - NÃO SE RECOMENDA ANTIBIOTICOPROFILAXIA:

Independente da condição cardíaca:
- anestesia local em tecido não-infectado
- radiografia odontológica
- colocação de peças em aparelhos ortodônticos
- queda de dente de leite
- sangramento oriundo de mucosa oral por trauma

Independente do procedimento odontológico:
- Portadores de comunicação interatrial isolada
- Portadores de comunicação interventricular ou persistência do canal arterial corrigidas e sem fluxo residual
- Cirurgias de revascularização miocárdica
- Prolapso de valva mitral sem regurgitação
- Após colocação de stents
- Portadores de marca-passo ou CDI
- História de febre reumática ou doença de kawasaki que não tem disfunção valvar

2) Como faço a antibioticoprofilaxia ?

Fazer 1 hora antes do procedimento

Via oral:
- Amoxicilina 2g em adultos e 50 mg/kg em crianças
- Clindamicina 600 mg  em adultos e 20 mg/kg em crianças
- Azitromicina 500 mg em adultos e 15 mg/kg em crianças
- Claritromicina 500 mg em adultos e 15 mg/kg em crianças
- Cefalexina 2g em adultos e 50 mg/kg em crianças

Via endovenosa:
- Ampicilina 2g em adultos e 50 mg/kg em crianças
- Ceftriaxone 1g em adultos e 50 mg/kg em crianças
- Cefazolina 1g em adultos e 50 mg/kg em crianças
- Clindamicina 600 mg em adultos e 20 mg/kg em crianças

3) Qual manejo em relação ao paciente que faz uso de Varfarina ( Marevan ®) ?

Varfarina - paciente em uso dessa medicação podem ser abordados seguramente desde que o INR esteja menor que 3 ( há algumas sociedades que citam até 4 ) e que o procedimento cirúrgico planejado seja de pequeno a moderado porte - extração de até 3 dentes, cirurgia gengival, raspagem periodontal, etc.

Para isso, recomenda-se que seja feita a dosagem do INR 24h antes da data prevista e estando menor que 3 a cirurgia pode ser feita. Em doentes que tenham história de INR estável, uma dosagem até 72h antes do procedimento seria aceitável.

Caso haja necessidade de prescrição de antibiótico - sobretudo amoxicilina, azitromicina, ampicilina ou clindamicina - por algum motivo relacionado ao procedimento, deve-se solicitar a aferição do INR no 3-4 dia após a introdução da medicação no sentido de detectar precocemente alguma interferência causada pelo fármaco.

Para procedimentos de maior porte - múltiplas extrações dentárias, cirurgias envolvendo corte ósseo profundo - pode-se aventar a realização de ponte com heparina ( veja post específico )

4) Qual manejo em relação ao paciente que utiliza os chamados Novos Anticoagulantes Orais (NOAC) - Rivaroxabana ( Xarelto ®), Dabigatrana ( Pradaxa®) e Apixabana ( Eliquis ®) em relação a cirurgias odontológicas ?

NOAC: nesse grupo de medicações estão inclusas, em mercado nacional, a rivaroxabana, dabigatrana a apixabana. Por serem uma geração de medicamentos com uma farmacologia mais previsível, não há, de rotina, um exame para monitorizar sua dose de anticoagulação, como o TP, no caso da varfarina ( há um post mais específico sobre a farmacologia dessas drogas ). Essas medicações devem ser mantidas para procedimentos de pequeno a moderado risco de sangramento.

Pede-se que evite a cirurgia nas primeiras 2-3 horas após a ingestão da medicação, idealmente o procedimento sendo executado o mais distante possível da próxima dose. Por exemplo, paciente utilizando a Rivaroxabana às 10h , poderia ter agendado seu procedimento para as 7 h da manhã desse dia, desde que, obviamente, não se espere que o procedimento irá prolongar-se muito além das 10h.

Para cirurgias consideradas de maior porte -  múltiplas extrações , cirurgias envolvendo corte ósseo profundo, cirurgias alveolares - e, por isso, de alto risco de sangramento, pode-se considerar a interrupção temporária dessas medicações, mas sem necessidade de realizar ponte com heparina.

Nesse caso sugere-se:

Rivaroxabana:
Suspende-se a medicação dois dias antes do procedimento e reinicia-se assim que considerado seguro, habitualmente com 48-72h após o procedimento.

Dabigatrana:
Se o clearance de cr > 50: suspende-se a medicação dois dias antes do procedimento
Se o clearance de cr 30-50: suspender-se a medicação quatro dias antes do procedimento
Reinicia-se a medicação assim que considerado seguro, habitualmente com 48-72h após o procedimento.

Apixabana:
Suspende-se a medicações dois dias antes do procedimentos e reinicia-se assim que considerado seguro, habitualmente de 48-72h após procedimento

* Essas recomendações podem ser ajustadas baseadas em peculiaridades do caso. Elas servem apenas como um guia geral.



5) O que fazer em relação ao paciente que toma antiplaquetários - AAS / Clopidogrel / Ticagrelor / Prasugrel ?

Não há necessidade de interrupção de AAS para procedimentos odontológicos. Poderá haver uma maior tendência a sangramento, mas de pouca importância. Recomenda-se ter um bom aspirador funcionante e que se gaste um pouco mais de tempo realizando a hemostasia, se necessário.

O mesmo vale para outros antiplaquetários em uso isolado ou associado ao AAS - clopidogrel, ticagrelor ou prasugrel, deve-se manter o uso das medicações.

5) Qual cuidado em relação aos pacientes portadores de dispositivo cardíaco eletrônico implantável (DCEI) - marcapasso, cardiodesfibrilador implantável (CDI)  ou ressincronizadores ?

Uso de bisturi elétrico:

Como as cirurgias odontológicas em sua maioria não utiliza bisturi elétrico, não há nenhum cuidado adicional em relação a DCEI. Caso haja planejamento de uso de bisturi elétrico, o médico arritmologista deve ser contactado para programar o aparelho (vejo post específico).

Antibioticoprofilaxia:

Em relação a necessidade de antibioticoprofilaxia o assunto é controverso. A maioria dos guidelines atuais, inclusive as II Diretrizes Brasileiras e a própria anvisa deixam claro que NÃO HÁ necessidade do uso de antimicrobianos em procedimentos odontológicos relacionados a portadores de DCEI, haja vista que esses pacientes são considerados de baixo risco para desenvolver endocardite ( observe que essa recomendação leva em conta caso a única co-morbidade do paciente seja a própria presença do dispositivo ). Apesar disso, ainda há serviços de referência que recomendam o uso rotineiro da profilaxia.

Uso de ultrassom (US) em odontologia:

Outro ponto que causa bastante controvérsia é sobre a possibilidade de algum instrumental odontológico, sobretudo o uso de ondas de ultrassom causar algum dano no funcionamento DCEI. Não há ainda, por parte da maioria das sociedades médicas/cirurgiões-dentistas, um posicionamento oficial sobre o tema, sobretudo pelo fato de que , pelo intenso desenvolvimento tecnológico, ser difícil 'atestar' a segurança dos diversos aparelhos que a toda hora chegam no mercado.

O uso de ultrassom na odontologia é muito comum para o combate a doença periodontal, onde atua de maneira mais tradicional na remoção de placa bacteriana próxima ao dente e o cálculo duro.

Há dois princípios básicos para obtenção das ondas:

Magneto estrictivos: que utilizam transformam energia eletromagnética em mecânica. Essa forma gera produção de calor.

Cristais piezoelétricos: que através da deformação de cristais quando submetidos a corrente elétrica geram ondas, mas sem formação de calor.

O curioso é notar que certa discordância entra os fabricantes dos aparelhos dentários x os fabricantes dos DCEI. Estes, sendo mais liberais em relação ao uso de US em quem tem DCEI, ao passo que aquelas são bastante 'cautelosos' e, via de regra, contra-indicando o uso do US nos doentes com DCEI.

Muita dessa desconfiança vem de possíveis implicações médico-legais por medo de que o US possa interferir no correto funcionamento dos aparelhos. Esse medo acabe se propagando pela escassez de trabalhos de boa qualidade na literatura abordando o tema.

Contudo, o que se vê até o momento, é que estudos in vitro tem resultados conflitantes e estudos in vivo não mostraram nenhuma grande interferência no funcionamento dos DCEI, quando do uso do US. Um estudo em 2013, por exemplo, avaliando 12 pacientes portadores de CDI não demonstrou nenhuma interação mensurável entre US e os aparelhos cardíacos dos doentes.

Haja vista o que foi apresentado, deve-se ter cautela em relação ao uso de dispositivos com US, mas, em principio, aparenta ser um procedimento seguro ao paciente. É de bom tom que, sempre que possível, o procedimento odontológico seja realizado próximo ao período de revisão semestral do paciente junto a seu médico arritmologista e, obviamente, caso paire qualquer dúvida, sugere-se contactar o médico assistente antes da realização do procedimento.

6) Como manejar o uso de anestésicos locais: com ou sem vasoconstrictor ?

O tema gera alguma controvérsia. Apesar de a interação de epinefrina ser relatada com fármacos betabloqueadores, antidepressivos tricíclicos, diuréticos e outras medicações cardiovasculares, o uso de 2 a 3 tubetes de lidocaína a 2% com 1:100000 de epinefrina parece ser seguro em pacientes cardiopatas, mesmo em hipertensos. O efeito de melhor analgesia e controle de sangramento parece suplementar o potencial risco de alguma interação medicamentosa ou efeito colateral do vasoconstrictor utilizado em baixo volume.

7) Quanto tempo após o infarto é seguro realizar um procedimento eletivo ?

Recomenda-se que espere-se 4 semanas após um paciente com infarto para que se programe qualquer tipo de cirurgia eletiva.

Cuidados gerais que devem ser:

-  Minimizar trauma cirúrgico
-  Remover a sutura não-absorvível em 4-7 dias após procedimento
- Manter uma compressão com gaze por tempo maior em pacientes usando antiagregantes ou anticoagulantes: 15-30 minutos.
- Uso de agentes coagulantes locais: esponja gelatinosa, celulose regenerada oxidada, colágeno sintético
-  Bochechos de ácido tranexâmico em solução aquosa a 4,8% ou 5% , durante e após 7 dias da cirurgia, com 10 mL, 4 vezes ao dia, por 2 minutos. Não há essa solução para comercializar no país. O que se pode fazer é macerar o comprimido e diluir em soro fisiológico, na proporção de 2 comprimidos para cada 10 ml de soro - o que daria a solução a 5%, já que cada comprimido de ácido tranexâmico tem 250 mg. 
- Planejar cirurgias para o começo da manhã e início da semana, pensando que, caso haja alguma intercorrência, se tenha maior facilidade de acesso a recursos para solucionar algum problema

Leitura sugerida:

Maiorana C e cols. Do ultrasonic dental scalers interfere with implantable cardioverter defibrillators? An in vivo investigation. JJOD-2123; No. of Pages 5
http://www.researchgate.net/profile/Giovanni_Grossi2/publication/255957444_Do_ultrasonic_dental_scalers_interfere_with_implantable_cardioverter_defibrillators_An_in_vivo_investigation/links/00463524b0589c9e2a000000.pdf?inViewer=true&&origin=publication_detail&inViewer=true

II Diretriz de Avaliação Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
http://publicacoes.cardiol.br/consenso/2011/II_diretriz_perioperatoria.pdf

Verma, G. Dental Extraction Can Be Performed Safely in Patients on Aspirin Therapy: A Timely Reminder  http://www.hindawi.com/journals/isrn/2014/463684/

Profilaxia antimicrobiana em odontologia - site da ANVISA, acessado em set/2015
http://www.anvisa.gov.br/servicosaude/controle/rede_rm/cursos/atm_racional/modulo3/indicacao_odontologica3.htm

Prevention of Infective Endocarditis. AHA Guidelines 2007
http://circ.ahajournals.org/content/116/15/1736.full.pdf+html

Update on Cardiovascular Implantable Electronic Device Infections and Their Management AHA Statement

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Pressão arterial elevada assintomática no pronto-socorro: Clinical Policy American College of Emergency Physicians (ACEP)


Ainda abordando o tema do paciente com pressão arterial elevada, trazemos ao blog a Política Clínica oficial do ACEP.

Sob o título de 'Clinical Policy: Critical Issues in the Evaluation and Management of Adult Patients in the Emergency Department With Asymptomatic Elevated Blood Pressure', ela foi publicada no Annals of Emergency Medicine em Junho de 2013, com provável atualização em 2016.

Essa é uma publicação que representa a posição oficial, baseada em evidências, dessa grande sociedade médica americana.

Nessa publicação, foram abordados duas temas de relevância clínica ao médico emergencista e feita uma extensa revisão literária para mostrar a melhor evidência para responder aos questionamentos:


As questões clínicas foram:
1) No PS, pedir exames para pesquisa de lesões em órgão alvo de indivíduos assintomáticos reduz a taxa de eventos adversos ?
2) Nos pacientes com aumento de PA, intervir medicamentosamente no PS reduz a taxa de eventos adversos ?

Esssa revisão incluiu pacientes acima de 18 anos, não gestantes, sem qualquer sintomatologia e  com nível de PAS > 160 e/ou PAD > 110, de acordo com a classificação do estágio 2 do VII JNC.

Vamos as conclusões:

1) No PS, pedir exames para pesquisa de lesões em órgão alvo de indivíduos assintomáticos reduz a taxa de eventos adversos?
- Não recomenda-se  realização rotineira de exames para pesquisa de lesões em órgão alvo, tais como ECG, função renal ou urina tipo 1.
- Em uma população com baixo acesso a cuidados de saúde, esses exames, sobretudo a função renal, podem ser solicitados no sentido de se detectar alguma anormalidade que pode justificar internação hospitalar. 

Veja que não se está dizendo que esses exames não são úteis para o manejo clínico do doente hipertenso, mas sim questionando qual a real utilidade de fazermos isso no departamento de emergência.

2) Em pacientes com PA elevada e assintomáticos realizar intervenção medicamentosa no PS reduz a taxa de eventos adversos?
- Na maioria dos pacientes nessa situação a intervenção médica no PS não é necessária.
- Em alguns pacientes, sobretudo os que tem baixo acesso a saúde, o médico pode iniciar o tratamento anti-HAS ainda no PS, ou seja, podemos dar uma receita de anti-hipertensivo para uso crônico e não que devemos dar medicação no próprio PS e 'aguardar' a pressão baixar!
- Todos os pacientes devem ser prontamente encaminhados para acompanhamento ambulatorial em curto prazo

Para maior detalhamento sugere-se a leitura do artigo, que é disponibilizada aqui.